Quando os operários da montadora de caminhões Scania em São Bernardo do Campo cruzaram os braços, em 1978, o Brasil inteiro parou (na greve que tornou conhecido o sindicalista Lula). Quarenta anos depois, a produção de carrocerias está novamente sem metalúrgicos — e, dessa vez, para produzir mais e melhor. Trata-se da primeira fábrica de seu gênero, no país, totalmente com soldas a laser, robotizadas. O barulho foi trocado por tamanho silêncio que o movimento dos braços robóticos tornou-se a sinfonia dominante. A solda a laser, sem fagulhas, reduziu o calor a ponto de o galpão dispensar ar-condicionado. Há apenas exaustores, que trabalham coordenados à ação dos robôs. Os funcionários foram treinados para desempenhar outras funções, como levar peças até as máquinas. “O Wagner [Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC] disse: nós queremos ser a mão de obra tecnicamente qualificada para atuar na nova indústria”, diz Ricardo Cruz, gerente executivo da fábrica, em entrevista a Época NEGÓCIOS. “Eles enxergam que isso aqui é um divisor de águas”. Para atender a 30 países, a nova linha de montagem pode fazer 25.000 veículos por ano, trabalhando dia e noite, sete dias por semana.              

RICARDO CRUZ, GERENTE EXECUTIVO DA FÁBRICA DE SOLDA DE CAMINHÕES DA SCANIA (FOTO: DIVULGAÇÃO)

 

Como a nova linha de montagem se compara à antiga?
A linha anterior é parcialmente automatizada, com 13 robôs, e a solda é principalmente um trabalho manual. Era incompatível com os novos caminhões da Scania. As chapas mais leves e as formas mais aerodinâmicas da nova geração de veículos, importantes para uma redução do consumo de combustível de pelo menos 10%, requerem maior precisão na montagem. A nova linha é 100% automatizada, com 75 robôs. Lida com 72 tipos de lateral de cabine, uma variedade seis vezes maior que a anterior. A solda a laser reduz o desperdício de materiais e a produção de resíduos. Todo o transporte de peças dentro da fábrica poderá ser feito com rebocadores elétricos, abastecidos com energia captada por painéis solares.

Quais as vantagens de uma linha de montagem automatizada?
Nossos robôs e nossas equipes conversam entre si e com os da fábrica da matriz, na Suécia — as duas linhas de produção são espelho uma da outra. Por celular ou tablet, é possível ter o histórico estatístico do que aconteceu na fábrica. O calendário de produção e manutenção é permanentemente cruzado com os dados de desempenho dos robôs. O sistema identifica padrões que e nos diz: “aqui pode haver um problema, então vamos fazer uma intervenção antes de a máquina parar”. A fábrica com inteligência vai dar mais produtividade e retorno. 

O que foi feito com os antigos funcionários?
A fábrica tem 160 pessoas e elas não foram demitidas. Nem na crise, nem com a automação. Demos mais de 10 mil horas de treinamento para novas competências. Os funcionários ajudarão a distribuir as peças e farão mais da metade da manutenção programada para os robôs. A indústria 4.0 não é só inovação, não é só manufatura integrada, não é só tecnologia de ponta. Se não tiver inclusão das pessoas, não funciona.

Na Scania, cada geração de caminhão dura cerca de dez anos. Este novo modelo será o último com motor a diesel?
O que você ganha com uma fábrica digital, com um produto desenvolvido digitalmente? Antes tinha de fazer todo o desenvolvimento de produto, para então fazer o desenvolvimento de processo. Hoje, eu já consigo fazer a simulação de fabricação de um produto que nem existe ainda. O caminhão elétrico ainda não está pronto, mas eu já sei exatamente como ele afetará nosso processo produtivo. O que mudará no produto e o que precisará mudar na fábrica. Já estou perto de cotação para fazer a operação, com simulação dos robôs e as alterações necessárias. Para introduzir a nova linha, a gente precisou de dois meses para fazer a simulação no computador e seis semanas para adaptar a linha de produção. Antes, eu levaria pelo menos um ano.

Essa é a última geração de caminhões feitos para motorista?
É uma boa pergunta… O desenvolvimento do veículo autônomo é um dos pilares da Scania. Eles já estão muito presentes em áreas confinadas, como mineração e aeroportos. Eu imagino que a cabine ainda terá papel importante, da mesma forma que você ainda tem nos aviões. Por questões regulatórias e pela vontade de clientes, muitos caminhões estão saindo com cabines até maiores. O caminhão autônomo vai chegar, mas haverá espaço para o motorista. Às vezes não será possível usar o caminhão em piloto automático na viagem inteira. Você pode usar o modo autônomo em uma estrada reta e passar a direção ao motorista ao entrar numa cidade.

Fonte: Época Negócios